Rio de Janeiro — No estúdio improvisado de uma casa em Bangu, o produtor MC Vibe grava o quinto take de um trecho de 18 segundos. Não é clipe tradicional: é material para o TikTok, onde ele acumula 420 mil seguidores e onde, segundo ele, "o povo descobriu que funk de verdade não é só o que toca no rádio".
A história de Vibe, 28 anos, se repete em dezenas de bairros do Rio. Artistas que tocavam em bailes de comunidade e rodas de samba passaram a tratar a plataforma como vitrine principal. O Pulso passou duas semanas acompanhando gravações, conversando com DJs, sambistas e gestores de perfis para entender como o algoritmo está redesenhando a música local carioca.
Do baile ao feed
Antes de 2020, a carreira de muitos funkeiros dependia de shows em comunidade, sonorização em bailes e divulgação boca a boca. Com a pandemia, os bailes pararam — e o celular virou palco. "Eu já tinha música pronta que nunca tinha sido lançada direito. Coloquei no TikTok e em uma semana tinha gente pedindo pra tocar em festa em Niterói", conta Vibe.
No samba, o movimento foi parecido, mas com outro ritmo. Grupos de raiz que tocavam em rodas na Zona Norte começaram a transmitir trechos ao vivo. O público jovem — que muitas vezes associava samba apenas ao carnaval de elite — descobriu versões de partido alto, samba de mesa e partido baixo em vídeos caseiros com qualidade de áudio surpreendente.
Como funciona a economia do trend
Nem todo view vira dinheiro. O Pulso conversou com cinco artistas e três gestores de conteúdo. O modelo mais comum combina três fontes: shows locais (cachê entre R$ 800 e R$ 5.000 dependendo do nome), parcerias com marcas jovens (muito variável) e, para poucos, monetização direta da plataforma.
"O TikTok paga pouco no Brasil comparado ao que a gente ganha com show que veio do vídeo", explica Jéssica Lima, 26, que gerencia perfis de dois funkeiros em Madureira. "O valor real é agenda: o vídeo estoura, a DM enche, a gente fecha data."
Marcas de bebida, moda street e até fintechs já procuram criadores com audiência engajada no Rio. Mas artistas alertam para contratos desiguais. "Tem empresa que quer o funkeiro no vídeo mas não quer falar que é publicidade. A gente não aceita mais", diz o sambista Neto Rodrigues, 31, da Penha.
O algoritmo não substitui o baile — mas quem aprendeu a usar os dois está chegando mais longe.
Samba de raiz no celular da Gen Z
Um dos fenômenos mais interessantes é a redescoberta do samba por ouvintes entre 18 e 25 anos. Playlists no Spotify com trechos virais do TikTok registraram crescimento de 140% em streams de samba de raiz no primeiro trimestre de 2026, segundo dados públicos da plataforma consultados pelo Pulso.
Para Mariana, 23, estudante de comunicação na UERJ, "o samba sempre existiu na minha família, mas eu achava velho. Vi um vídeo de roda no TikTok e fui na Pedra do Sal pela primeira vez". Esse caminho — do feed para o espaço físico — é exatamente o que artistas esperam.
Rodas de samba em Lapa, Madureira e em São Cristóvão relatam público mais jovem nos últimos meses. Nem todos os veteranos veem com bons olhos: há tensão entre preservar a tradição e adaptar o repertório para formatos curtos. "Não dá pra resumir um samba de dez minutos em 15 segundos sem perder a alma, mas dá pra convidar a pessoa a ouvir o resto", pondera Neto.
O lado sombrio do algoritmo
Dependência de plataforma tem riscos. Mudanças no algoritmo derrubam alcance da noite para o dia. Conteúdo pode ser removido por direitos autorais mesmo quando o artista é o autor. E a pressão por postar diariamente gera burnout — especialmente para quem grava, edita e negocia sozinho.
MC Vibe conta que passou três meses postando todo dia em 2025 e teve problema de ansiedade. "Parei de postar uma semana e o alcance caiu 70%. Parece que a plataforma te pune por respirar", relata. Hoje ele trabalha com calendário mais sustentável e equipe de duas pessoas.
O que vem pela frente
Especialistas em economia criativa veem o Rio como laboratório. "A cidade sempre produziu música que o resto do país depois copia. Agora a diferença é a velocidade", diz a pesquisadora Dra. Helena Moura, da UFRJ. Para ela, políticas públicas de apoio a estúdios comunitários e formação em gestão digital seriam o próximo passo.
Enquanto isso, artistas seguem improvisando. O TikTok não substituiu o baile nem a roda de samba — mas criou um corredor novo entre o bairro e o resto do Brasil. E para a juventude carioca, isso já mudou o mapa de quem pode ser ouvido.