São Paulo — Na última terça-feira, uma fila de candidatos se formou no prédio de uma fintech na Vila Olímpia para uma dinâmica de grupo para vaga de analista júnior. Entre os 40 participantes, a maioria tinha entre 22 e 26 anos, formação em engenharia, ciência da computação ou cursos livres de programação — e a mesma pergunta no ar: como conseguir experiência se toda vaga pede experiência?

O caso não é isolado. Dados compilados pelo Pulso com base em anúncios publicados em plataformas de emprego entre março e maio de 2026 mostram que 68% das vagas júnior em tecnologia na capital paulista listam ao menos um requisito que vai além do diploma: portfólio ativo, certificação em nuvem, inglês avançado ou participação em hackathons. Para quem vem de universidade pública no interior ou de família sem rede no setor, cada item pode virar barreira.

Três portas de entrada — e o que cada uma exige

Estágio tradicional. Ainda é o caminho mais comum para quem está na metade da graduação. O problema, segundo estudantes ouvidos pela reportagem, é a remuneração: a bolsa média em tech em SP ficou em R$ 1.890 em 2026, segundo levantamento da Associação Brasileira de Estágios (ABRES). Com aluguel de quarto na região da Faria Lima entre R$ 1.400 e R$ 2.200, muitos dependem de ajuda familiar ou de trabalhos extras nos fins de semana.

Bootcamp. Cursos intensivos de 12 a 24 semanas prometem inserção rápida no mercado. Rafael, 24 anos, formado em administração, fez um programa de desenvolvimento web em 2025 e conseguiu vaga como desenvolvedor júnior três meses depois — mas com salário inicial de R$ 3.200 CLT. "Funcionou, mas eu morava com meus pais em Guarulhos. Se precisasse pagar aluguel sozinho na região do trabalho, não fecharia a conta", conta.

Faculdade + projetos pessoais. Para Juliana, 23, estudante de sistemas de informação na USP, o GitHub virou currículo. Ela contribui para projetos open source e documenta tutoriais no LinkedIn. Mesmo assim, levou oito meses de entrevistas até receber a primeira oferta. "As empresas falam em diversidade, mas na prática ainda valorizam muito indicação", avalia.

O que os recrutadores dizem

Conversamos com três profissionais de RH de startups e uma head de people de empresa de médio porte. Todos reconhecem a contradição das vagas júnior que pedem experiência prévia. "O mercado apertou depois de 2024 e muitas empresas redimensionaram times seniores. Sobrou pressão para o júnior chegar 'pronto'", explica Camila Ribeiro, consultora de talentos em tecnologia.

A mesma lógica aparece nas entrevistas técnicas. Candidatos relatam processos com quatro a seis etapas, incluindo teste ao vivo de código, case de produto e fit cultural. "Não é exagero pedir critério, mas às vezes parece que estão contratando pleno com salário de júnior", diz Pedro, 25, que participou de 23 processos seletivos em seis meses antes de ser aprovado.

O primeiro emprego em tech em São Paulo não é só sobre saber programar — é sobre aguentar o trânsito, pagar o aluguel e navegar um mercado que mudou de ritmo.

Geografia importa

A concentração de empresas na zona sul e oeste de São Paulo cria um mapa desigual de oportunidades. Jovens que moram em Itaquera, Brasilândia ou na periferia de Osasco gastam duas a três horas por dia no deslocamento — tempo que concorre com estudo, projetos pessoais e descanso.

Algumas empresas adotaram modelo híbrido com dois dias presenciais, o que alivia parte do problema. Outras voltaram ao presencial integral, o que, segundo entrevistados, elimina candidatos que não podem se mudar para perto. "Me ofereceram vaga boa, mas só presencial em Pinheiros. Não tinha como aceitar morando em São Mateus", relata Bianca, 22.

O que está mudando — devagar

Programas de trainee voltaram a aparecer em algumas big techs e bancos digitais em 2026, com salários entre R$ 5.500 e R$ 7.000 para recém-formados. São vagas disputadas — um programa recente recebeu mais de 4.000 inscrições para 30 posições — mas sinalizam que há espaço para entrada estruturada.

Coletivos de tecnologia e grupos de estudo em periferias também ganham relevância. Na zona leste, o projeto DevPeriferia conecta jovens a mentores voluntários e simula entrevistas técnicas. "A gente não resolve o mercado, mas reduz a assimetria de informação", diz a fundadora, Ana Lúcia Ferreira.

Próximos passos para quem está na busca

Especialistas ouvidos pelo Pulso recomendam tratar o portfólio como prioridade — mesmo que sejam projetos pequenos, bem documentados. Participar de comunidades (não só seguir influenciadores) ajuda a entender o que empresas realmente avaliam. E negociar benefícios como vale-transporte, auxílio home office ou horário flexível pode compensar salários iniciais mais baixos.

A Gen Z não está "exigente demais" ao questionar salário e condições. Está fazendo conta em um dos mercados de trabalho mais competitivos e caros do país. O primeiro emprego em tech em São Paulo continua sendo possível — mas exige estratégia, rede e, muitas vezes, sorte.